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Terminologia incorreta levanta suspeita quanto à segurança de biossimilares

 

 

Para especialistas, cópias de medicamentos que não são biossimilares devem receber outros nomes para evitar confusão entre médicos e pacientes.

 

Provavelmente, você já deve ter se questionado quanto à segurança de biossimilares durante a prescrição de uma terapia.

Essa dúvida é algo comum e, para Martina Weise, do Bundesinstitut für Arzneimittel und Medizinprodukte (BfArM), na Alemanha, e colegas membros do Biosimilar Medicinal Products Working Party (BMWP) na European Medicines Agency (EMA; Londres) essa desconfiança é reforçada pelo uso incorreto do termo biossimilar. Buscando esclarecer quais produtos de fato podem ser conceituados dessa forma, os pesquisadores produziram um artigo que foi publicado recentemente na Nature Biotechnology, 29, 690–693, na seção de opinião e comentários.

 

A equipe explica na publicação que, de acordo com o conceito estabelecido pela União Européia, biossimilar é uma versão copiada de um medicamento biológico já autorizado que apresenta similaridade demonstrada com o produto de referência com relação às características físico-químicas, à eficácia e à segurança. Essa similaridade deve ter sido estabelecida a partir de um exercício de comparação abrangente.

 

Como geralmente as empresas que desenvolvem os biossimilares não têm acesso aos dados das companhias que fabricam os medicamentos de referência, elas criam novas rotas de síntese que sejam capazes de gerar produtos com o maior número de semelhanças possíveis. Dessa forma, ao utilizar, por exemplo, sistemas de expressão, processos de fermentação e purificação e também excipientes diferentes, “os atributos de qualidade do biossimilar e do medicamento de referência não serão estritamente iguais”, defendem Martina e colegas.   

 

Considerando essas diferenças, os autores lembram que é praticamente impossível que um biossimilar possa ser abordado de forma genérica, ou seja, não há como estabelecer um modelo para estudos de demonstração de bioequivalência que seja suficiente para permitir o desenvolvimento, a avaliação regulamentar e o licenciamento dos biossimilares. Por essa razão, a equipe defende que o termo biogenérico é incorreto e não deve ser utilizado para nomear um produto biossimilar. 

 

Atualmente, várias versões copiadas de biofármacos estão disponíveis em diferentes partes do mundo. Segundo os pesquisadores europeus, essa expansão se dá principalmente a partir da expiração de patentes dos biofármacos. “Embora as versões copiadas de biofármacos originais já estejam disponíveis em diferentes partes do mundo, não há nenhuma exigência mundial consistente para registro”, afirmam.

 

Eles lembram que na União Européia qualquer biossimilar submetido à aprovação é avaliado através de um exercício de comparação com o produto de referência, incluindo a comparação dos atributos de qualidade que é seguida por estudos comparativos não clínicos. Entretanto, se for considerado necessário, estudos clínicos também podem ser conduzidos. "Deve ser lembrado que um exercício de comparação também é necessário para medicamentos biológicos de referência quando são feitas alterações no processo de fabricação”, dizem. Eles lembram que essas reformulações são realizadas com frequência ao longo do ciclo de vida de um produto, o que significa que o perfil de qualidade de um medicamento pode evoluir. Mas mesmo que isso ocorra, os autores afirmam que ainda assim o produto seria considerado comparável ao medicamento antes da alteração, desde que impactos relevantes na segurança e na eficácia tenham sido seguramente descartados.

 

A prescrição dos biossimilares também deve ser semelhante a do medicamento de referência. Na prática, isso significa, segundo os membros da BMWP, que o biossimilar deve ser usado na mesma dose e no mesmo regime de dosagem para tratar a mesma doença que o produto de referência.

 

Diante dessa questão, os autores ressaltam que os biossimilares não são, portanto, desenvolvidos visando ao benefício do paciente por si só. Esses produtos, na verdade, são sintetizados objetivando demonstrar de forma convincente sua semelhança com o produto de referência. Assim, os biossimilares "confiam", de certa maneira, na experiência de eficácia e segurança adquirida com o medicamento de referência.

 

Com relação às comparações que asseguram a biossimilaridade clínica, é importante lembrar, dizem Martina e colegas, que elas se baseiam em modelos de teste clínico sensíveis, capazes de detectar possíveis diferenças entre o biossimilar e o produto de referência. "Por exemplo, diferenças na eficácia de duas insulinas seriam detectadas com maior probabilidade em indivíduos insulino-sensíveis, em sujeitos saudáveis com peso normal ou em pacientes com diabetes mellitus tipo 1 do que naqueles que são obesos e têm diabetes tipo 2 insulino-resistente", citam os pesquisadores no artigo.

 

Hoje em dia, segundo a equipe, até é possível que alguns biossimilares tenham o número de exigências necessárias para o licenciamento reduzido, porém para que isso ocorra, é necessário que a similaridade das características físico-químicas estejam bem definidas. “A quantidade de redução de dados depende de quão bem a molécula pode ser caracterizada, pelo estado da arte de métodos analíticos, sobre as diferenças observadas ou potenciais entre o biossimilar e o produto de referência e a experiência clínica adquirida com o produto de referência e/ou com as classes de substâncias", afirmam na publicação.

 

Diante da grande diversidade de medicamentos copiados disponíveis no mercado e de terminologias usadas para defini-los, surge uma confusão que é vivenciada no consultório e refletida até na área acadêmica. Segundo os pesquisadores, recentemente estudos químicos mostraram que “epoetinas similares” eram significativamente diferentes do produto supostamente de referência, mas, por outro lado, apresentavam qualidades quase iguais ao mesmo. Martina e equipe explicam que esses achados aparentemente contraditórios, na verdade, não o eram, pois as pesquisas analisaram produtos diferentes. No primeiro caso, as proteínas investigadas não eram biossimilares e corretamente não foram nomeadas como tal.

 

Os pesquisadores citam no artigo outros exemplos de confusão. Para eles, por exemplo, as heparinas de baixo peso molecular que já são comercializadas fora da União Européia e dos Estados Unidos "não deveriam ser rotuladas de biossimilares porque não está claro se elas foram desenvolvidas de uma maneira comparativa. Além disso, formulações diferentes da toxina botulínica A recentemente descritas por Wenzel e colaboradores não se qualificam como verdadeiros biossimilares por causa de diferenças óbvias nas características físico-químicas, doses e regimes de dosagens", afirmam.

 

Finalmente, de acordo com estes fatos fatos, Martina e equipe defendem: sugerimos que qualquer versão copiada de uma proteína terapêutica, que não tenha sido desenvolvida e avaliada em conformidade com os princípios científicos de um programa de desenvolvimento comparativo contra um produto de referência, não deveria ser chamada de biossimilar". Para os autores, o uso de terminologias claras e consistentes poderá evitar a confusão entre biossimilares e outras cópias de medicamentos biológicos e ainda garantirá o uso seguro desses produtos.